Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Three Times

(Zui Hao de Shi Guang, 2005, Hou Hsiao-Shien)



Daqueles filmes que se expressam melhor através das imagens que de palavras (e os diálogos são realmente curtíssimos). Hou explora profundamente os olhares e gestos dos personagens, com uma câmera agindo perfeitamente como observadora. A história é dividida em três: a primeira, passada nos anos 60, é a mais leve e otimista, e também minha favorita, disparada (com momentos que aproximam demais o filme de ser uma obra-prima); a que segue, agora em 1911, segue uma linha mais a linha de um melodrama trágico, mas o que se nota mesmo é a ousadia com que Hou decide narra-la, se apropriendo de características do cinema mudo; a última parte, nos dias atuais, talvez seja a mais introspectiva e melancólica (a que menos gostei - ou seria a que eu tive mais dificuldade?); em comum está, obviamente, o tema (o amor), e a sua atemporalidade. O que também impressiona é como Hou consegue unir estas três tramas de modo muito enxuto, homogêneo, o que falta a muitos daqueles filminhos divididos em episódios.

terça-feira, 8 de abril de 2008

O Assassinato de Jesse James...

(The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, 2007, Andrew Dominik)



Desde o início, "O assassinato de Jesse James..." (não, não vou colocar aquele título gigantesco todo) se propõe como uma investigação minuciosa dos motivos que levariam Robert Ford, vivido brilhantemente por Casey Affleck (e agora calo a minha boca, não gostava dele), a matar Jesse James, este interpretado por um Brad Pitt em grande forma. Para isto, Andrew Dominik, apenas em seu segundo filme e já demonstrando uma segurança enorme em relação à narrativa (e um senso estético muito grande também), resolve desconstruir o mito, mas sempre preservando o enigma que cerca a sua figura: aqui, Jesse James é um homem solitário, paranóico, que às vezes demonstra uma crueldade calculista, e em outros uma afetividade muito grande (especialmente, em relação à sua família, seus filhos). Robert Ford, ao se unir ao bando, parece ainda crer naquele personagem que era o maior herói de suas histórias preferidas, mas logo vem a decepção ao notar o descaso e a frieza com que Jesse James o trata: infelizmente, Ford parece ter chegado extamente na hora em que toda aquela aparente diversão em ser um fora-da-lei se transforma em fardo para os membros do grupo, e isto pode ser comparavado no semblante triste e cansado do personagem de Pitt. Essa descontrução de uma mitologia não é feita apenas neste ponto, já que Dominik dá apresenta uma outra visão ao gênero que já foi o maior representante do cinema de qualidade norte-americano (na época de John Ford e Howard Hawks), mas atualmente morto, o western: entrega uma encenação a única cena de ação em "O Assassinato de Jesse James..." ocorre por volta de seus vinte minutos iniciais, a do assalto ao trem (que deve ter as imagens mais bonitas que vi no cinema recente - todo aquele jogo de luzes e sombras, a construção da expectativa, perfeito), e depois o que vemos é um duelo mais centrado no lado psicológico, não apenas entre Ford e James, como também em relação aos outros membros do grupo (bom destacar também a ótima performance do sempre subestimado Sam Rockwell, que não eteve nenhuma atenção, infelizmente). Dominik realiza uma análise profunda das mudanças ocorridas naqueles personagens, e por isso acerta em cheio ao entregar ao trabalho um ritmo lento e contemplativo, com imagens muito fortes, acompanhadas às vezes por uma ótima trilha sonora composta pelo Nick Cave (que faz uma participação bem legal na parte final), mas sabendo aproveitar perfeitamente os silêncios (toda aquela sequencia que antecede a cena do assassinato é magistral). A narração em off é a única coisa que realmente me incomodou em determinados momentos, simplesmente porque não havia muita necessidade de existir, mas se encaixa muito bem dentro daquele epílogo. É um belíssimo trabalho, de qualquer modo.

sábado, 5 de abril de 2008

Filmes de Março



TOTAL: 22 filmes

Sindicato de Ladrões
(On the Waterfront, 1954, Elia Kazan)- * * * *1/2
Bullitt (1968, Peter Yates) - * * *1/2
Um Bonde Chamado Desejo (A Streetcar Named Desire, 1951, Elia Kazan) - * * * *
Vidas Amargas (East of Eden, 1955, Elia Kazan) - * * * *1/2
Jogos do Poder (Charlie's Wilson War, 2007, Mike Nichols) - * *1/2
O Pecado de Todos Nós (Reflections in a Golden Eye, 1967, John Huston) - * * * *
Elizabeth: A Era de Ouro
(Elizabeth: The Golden Age, 2007, Shekhar Kapur) - *1/2
O Assassinato de Jesse James... (The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, 2007, Andrew Dominik) - * * *1/2
O Sobrevivente (Rescue Dawn, 2007, Werner Herzog) - * * *1/2
10.000 A.C. (10.000 B.C., 2008, Roland Emmerich) - *
Cada um com o seu Cinema (Chacun son Cinema, 2007, vários diretores) - * * *
Anjos Caídos (Duo luo tian shi, 1995, Wong Kar-Wai) - * *1/2
Cartola (2007, Lírio Ferreira e Hilton Lacerda) - * * *1/2
Novo Mundo (Nuovomondo, 2006, Emanuele Crialese) - * * * *
Ponto de Vista (
Vantage Point, 2008, Pete Travis) - * *
Quem tem Medo de Virginia Woolf?
(Who's Afraid of Virginia Woolf?, 1966, Mike Nichols) - * * *
A Ponte do Rio Kwai (The Bridge on the River Kwai, 1957, David Lean) - * * *1/2
Spartacus (1960, Stanley Kubrick) - * * *
Santos e Demônios
(A Guide to Recognizing Your Saints, 2006, Dito Montiel) - * * *1/2
Não Estou Lá
(I'm Not There, 2007, Todd Haynes) - * * * * *
Paranoid Park
(2007, Gus Van Sant) - * * * *
12:08 A Leste de Bucareste
(A Fost sau n-a Fost?, 2006, Corneliu Porumboiu) - * *

segunda-feira, 31 de março de 2008

Um pouco sobre Paranoid Park



Vi ontem e realmente não consigo gostar deste como aconteceu com Elefante ou Last Days (obras-primas, pra mim), mas não há nenhuma dúvida de que é um trabalho maravilhoso, comprovando que Gus Van Sant entende o jovem e a adolescência como ninguém no mundo de hoje: Paranoid Park é todo sobre este período da vida, e não apenas sobre um garoto que acidentalmente assassinou um guarda; a culpa ocasionada por tal fato se mistura a vários outros sentimentos, e serve para atenuar ainda mais a confusão existente em sua cabeça: há a pressão - meio indireta - de se fazer sexo com a namorada; o descaso e o divórcio dos pais; sem falar dos problemas já naturais da juventude. Consegue se renovar, se utilizando de recursos até então não explorados tão profundamente em sua carreira, como o slow motion, que dá o tom do filme e é utilizada ge-ni-al-men-te em diversos momentos (os jovens andando de skate, por exemplo). Pode até ser considerado como uma obra bem distinta de um Last Days; sim, ambos tem como objetivo realizar um estudo sobre a figura central, mas a diferença está em como Van Sant decide abordar sua história: em Last Days a câmera se posiciona bem distante do protagonista, um retrato objetivo; em Paranoid Park, por outro lado, o registro é puramente subjetivo, como se estivesse sendo feito em um fluxo de consciência, através das memórias do protagonista( que também é narrador da história); e a câmera, agora, está sempre perto de seus personagens, observando os pequenos gestos e olhares. Estamos diante de um trabalho que decide por avaliar o estado de espírito, e, para desenvolver esta difícil tarefa, Van Sant se utiliza de muitos artifícios; os que mais chamam a atenção é a trilha sonora, se utilizando de músicas do Nino Rota (que em alguns momentos se encaixa com perfeição, mas em outros colobora com a formação de um anti-clímax), além de duas canções lindas do Elliott Smith, um dos meus músicos favoritos (tocar Angeles no final é covardia, diga-se de passagem), além das imagens em vídeo, do já citado slow motion e nos sons (repara só naquela cena fantástica do garoto no banho, como o barulho dos pingos d'água parecem sufocá-lo com o tempo).

Acho que é um daqueles casos que a revisão se faz necessário para que eu consiga digerir melhor. Até aqui, um ótimo filme, mas cresce com o tempo e algo no fundo me diz que ele é bem mais que isso.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Do You, Mr. Jones?



Meu Deus, existe melhor que esse nessa década? E essa cena é provavelmente o melhor videoclipe dentro de um filme já feito. Tudo perfeito.

PS: Embriagado de Amor é hors concours, claro.

domingo, 23 de março de 2008

Cada um com o seu Cinema

(Chacun son Cinema, 2007, vários diretores)



Possui aqueles velhos problemas de filmes divididos em episódios, como o fato dos diretores se apresentarem presos à uma curta duração (todos têm no máximo três minutos), dificultando o desenvolvimento do projeto; ou então a irregularidade, seja no ritmo ou nas qualidades dos segmentos. A verdade é que o trabalho me cansou um pouco, especialmente devido à grande quantidade de curtas que realmente não me despertaram nada e que são bem esquecíveis (Raymond Depardon - que abre o filme, mas não diz a que veio; Raoul Ruiz; Tsai Ming-Liang; os fofinhos do Zhang Yimou e do Chen Keige; etc.), mas também não devemos deixar de reconhecer a beleza de certos trabalhos: a maravilha do Hou-Hsien Hsien; a pequena obra-prima do Iñarritu (acho que o que de melhor ele já fez, para minha surpresa, mas pode ser culpa da trilha do O Desprezo, do Godard - e eu gosto dos dois primeiros dele), o hilário do Roman Polanski, um muito bonito dos Irmãos Dardenne, que se aproxima do curta do Iñarritu por depositar uma força muito grande na força de expressão de sua personagem, assim como ocorre em um outro episódio muito bonito, o de Abbas Kiarostami; o nostálgico segmento do Claude Lelouch. Alguns recorrem ao impacto, o choque, mais audaciosos: o de Lars Von Trier, cheio de um humor negro que me agradou (revela aquele desejo que fica meio que inconsciente na mente de alguns cinéfilo); o do David Cronenberg, fortíssimo e muito bom (o mais pessimista, com certeza); aquele dirigido pelo Amos Gitai, que esteticamente é bem interessante, mas me deixou dividido; o instigante "Absurda", de David Lynch; e, por fim, o genial curta do Roman Polanski, fazendo companhia ao Iñarritu e Hsien no top 3. A grande bomba é o da Jane Campion (o que raios é aquilo?), e outro que achei bem fraco foi o do Yousseff Chahine, puro egocentrismo. As maiores decepções ficaram por conta do Gus Van Sant e do Olivier Assayas (a câmera na mão é excessiva e incomodou - é melhor utilizada nos outros trabalhos que vi do diretor), um pouco bobos. Um que causou certa polêmica entre os comentários que já li foi o curioso segmento do Ken Loach, que foge demais da proposta do projeto, mas é curioso justamente por ser um tanto anti-climático. No geral é mais ou menos aquilo que se esperava de projeto do tipo, e, mesmo não sendo muito acima da média, acho que vale a pena ser visto.

sábado, 15 de março de 2008

Senhores do Crime

(Eastern Promises, 2007, David Cronenberg)



Visualmente é um dos filmes menos radicais do Cronenberg, mas tematicamente é possível encontrar diversos temas que são extremamente característico do cineasta, especialmente com seu trabalho anterior, o fantástico Marcas da Violência (ou seja, considerar Senhores do Crime como um filme mais "no piloto automático" é algo bastante equivocado, ao meu ver): o protagonista de ambas as histórias, interpretado brilhantemente por Viggo Mortensen, parecem se esconder através de uma máscara para conseguir ser aceito em seu ambiente. Em "Marcas...", Ed Stall havia conseguido atingir o sonho americano, até que seu passado volta para atormentá-lo; em "Senhores do Crime", Nikolai é motorista de uma família da máfia russa e contratado para realizar sempre aquele trabalho mais sujo, sempre às sombras, sem ser notado, quase um outsider, tendo que reprimir sua natureza. Quanto ao seu passado, nada se conhece, mas está expressado pelas inúmeras tatuagens de seu corpo. A Londres retratada por Cronenberg é sombria, obscura, e os personagens meio que se perdem nela; o modo como ele conduz a narrativa é seguro, preciso, e, se é não é um filme cheio de grandes momentos, Cronenberg nos entrega dois de uma força imensa: um deles comprova a secura com que o cineasta filma cenas de ação, esta passada numa sauna (um das grandes sequencias do ano, desde já); o outro é o belo plano final, que encerra o trabalho com um gosto amargo. Um filme menor, mas ainda assim, muito bonito.

terça-feira, 11 de março de 2008

Sangue Negro

(There Will be Blood, 2007, Paul Thomas Anderson)



Certamente o trabalho mais difícil do Paul Thomas Anderson, e com pontos muito diferentes de seus trabalhos anteriores, mas ainda assim continua a nos apresentar com habilidade alguns elementos já característicos em sua obra, seja dramaturgicamente (a relação entre pai e filho), ou tecnicamente, já que o trabalho com a câmera continua impecável, mérito também do diretor de fotografia, Robert Elswit, parceiro habitual de Anderson. Por outro lado, digamos que, se Embriagado de Amor (que não troco por nada no mundo, dificilmente PTA o superará) nos fornece algo como uma injeção de felicidade, Sangue Negro possui um efeito muito mais perturbador e impactante.

Outras duas coisas que contribuem imensamente para o êxito do filme: a primeira delas é a excepcional trilha sonora do Johnny Greenwood, guitarrista da maior banda da atualidade, Radiohead; impressionante como Anderson consegue criar uma sintonia tão perfeita entre imagem e música, e a brilhante primeira parte pode comprovar isto, quando observamos um ainda humilde garimpeiro prosperar (aliás, não me lembro de diálogos neste momento). O outro fator é, obviamente, a performance monstruosa, fora do normal, de Daniel Day-Lewis (você dificilmente vai encontrar atuação melhor que essa durante esta década). A densidade e complexidade do homem que interpreta, só poderia se tornar realmente crível com um ator de grande porte como ele. Anderson nos faz acompanhar as lentas e profundas transformações que ocorrem no seu psicológico e personalidade, que vai se isolando cada vez mais à medida que ocorrem uma série de decepções pessoais e familiares (outro tema muito presente nos demais trabalhos do cineasta): primeiro com seu filho, que não consegue cumprir as expectativas do pai, e depois com seu irmão. Essa construção do personagem (que, nas primeiras cenas, parece até um pouco afetuoso, para depois atingir a completa insanidade) é realmente fascinante, mas o que distancia o filme de ser uma obra-prima (pois tinha muitas chances de ser uma) são alguns pequenos excessos, uma certa irregularidade no ritmo, e uma cena final de impacto inquestionável, mas tenho dúvidas se era realmente necessária uma conclusão daquelas; preferiria que terminasse naquele sensacional diálogo entre Plainview e seu filho (“a bastard from a basket!”), que me parece bem mais importante do que o conflito com o pastor (interpretado por um Paul Dano surpreendente – a cena da pregação me deu arrepios), tentando não deixar de fora, é claro, aquela parte dos milkshakes (caso contrário, o que mais eu iria escrever na cadeira do colégio?). São coisas que atrapalham o resultado final, mas é tudo tão intenso que não consigo considera-lo menos que um grande filme.

sábado, 8 de março de 2008

quarta-feira, 5 de março de 2008

Filmes de Fevereiro



TOTAL: 16 filmes


Juno
(idem, 2007, Jason Reitman) - ****
Batman (idem, 1989, Tim Burton) - ***
No Direction Home: Bob Dylan (idem, 2005, Martin Scorsese) - ****1/2

A Vida de Brian (Life of Brian, 1979, Terry Jones) - ***
Jail Bait (1954, Ed Wood) - *1/2
A Noiva do Monstro (Bride of the Monster, 1955, Ed Wood) - ***
Sweeney Todd (idem, 2007, Tim Burton) - ****
Veneno (Poison, 1991, Todd Haynes) - ***1/2
Cloverfield (idem, 2008, Matt Reeves) - ***1/2
Onde os Fracos Não tem Vez (No Country for Old Men, 2007, Joel & Ethan Coen) - ****1/2
A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça (Sleepy Hollow, 1999, Tim Burton) - ***
Na Roda da Fortuna (The Hudsucker Proxy, 1994, Joel Coen) - ***
Sangue Negro (There Will Be Blood, 2007, Paul Thomas Anderson) - ****
Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007, David Cronenberg) - ***1/2
O Tesouro de Sierra Madre (The Treasure of the Sierra Madre) - ****1/2
Eleição 2 (Hak se Wui yi wo Wai Kwai, 2006, Johnnie To) - ***1/2

segunda-feira, 3 de março de 2008

Rainn on Film

Uma série de "entrevistas" e "testes de elenco" feitas pelo Rainn Wilson (o Dwight, melhor personagem da genial versão norte-americana de The Office) com os indicados ao Independent Spirit (foi apresentador da cerimônia que ocorreu dia desses). Abaixo seguem três delas, todas hilárias:

Com o Todd Haynes, de I'm Not There



Teste para Juno



Com o... errrr... "Julian Schnabel", de O Escafrando e a Borborleta



sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Onde os Fracos Não tem Vez

(No Country for Old Men, 2007, Ethan & Joel Coen)


A história passa basicamente por três personagens: um deles, interpretado por um inspirado Josh Brolin, é o homem comum e simples que existe em praticamente todos os filmes do Coen; é um ser que pode muito bem gerar identificação por parte da platéia, mas é bom ressaltar que não possui aquela doçura dos personagens de Fargo (pelo contrário, é ganancioso, mas esses seus defeitos o tornam ainda mais humano); como contraponto a ele, temos o de Javier Bardem, Anton, um assassino, a personificasção da violência, a "maldade em pessoa", como é dito em certo momento por algum personagem; a sua caracterização é peculiar, exagerada (algo que também é uma constante nos filmes da dupla), mas mais diabólico e aterrorizante do que qualquer outra figura presente na filmografia dos cineastas (temos também, é claro, que entregar os devidos créditos a Bardem, um ator genial em uma performance extraordinária). Entre esse conflito que é estabelecido entre os dois, está aquele que talvez seja a peça-chave da história: Ed Tom Bell, interpretado por Tommy Lee Jones (que, surpresa!, também tem uma atuação excelente). É o personagem que mais parece ter desgosto do caótico estado da América atual, e ao mesmo fica deslocado, sem entender no que ela se transformou, e de onde toda aquela violência que repentinamente assola a sua pacata cidade no Texas se iniciou.

A direção dos Coen também é magistral: sempre muito precisa, segura e madura, mas ao mesmo tempo discreta e com momentos de uma secura rara de se ver (além de terem escolhido a acertada opção de não produzir nenhuma trilha sonora, apenas com o silêncio e os sons ambiente, o que apenas contribui para que a violência que nos é apresentada seja ainda mais crua). Constroem um tom de crescente tensão, brincando com as expectativas do espectador, inicialmente criando uma narrativa clássica e com atmosfera de faroeste, mas qualquer idéia que podemos ter em relação à trama são desfeitas por uma terceira parte que parece pertencer a um trabalho do Monte Hellman: a estória sobre ganancia e uma maleta contendo quase 2 milhões de dólares parece evaporar; em seu lugar, entram umas elipses desconcertantes, que acabam por nos deixar tão perdidos e desnorteados como aqueles personagens que vivem em uma terra que não reconhecem mais.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Sobre a cerimônia

Não houve tantas surpresas como eu esperava, mas a escolha dos vencedores foi a mais acertada dos últimos anos,sem dúvida: a obra-prima “Onde os Fracos Não tem Vez”, dos Irmãos Coen (sempre um mar de simpatia e boa vontade) venceu 4 prêmios Oscar (Filme, Direção, Roteiro, e Ator Coadjuvante), como já era esperado (e vale dizer também que é um trabalho sem nenhum apelo acadêmico, o que indica uma grande evolução por parte dos votantes – os épicos pomposos parecem já ser coisa do passado, felizmente). Tivemos também Marion “ Das três mulheres mais bonitas do Cinema atual” Cotillard e Tilda “David Bowie” Swinton surpreendendo, mas quem acompanhou a “corrida” sabe que o buzz em torno de ambas havia aumentado consideravelmente nas últimas semanas, então a “zebra” nem é tão grande assim (só para constar: fiz a bobagem de apostar na Blanchet por “I’m Not There”, mesmo com ela tendo vencido na mesma categoria há apenas dois anos, enquanto o “queridinho” Conduta de Risco poderia sair de mãos abanando. Nas outras categorias principais, Daniel Day-Lewis foi injustiçado ao levar a penas um troféu, enquanto na verdade merecia dois (ou até mais); Juno acabou realmente por levar Roteiro Original, merecidamente; E Javier Bardem confirmou o favoritismo ao vencer na categoria de “Melhor Ator Coadjuvante”, ao interpretar um personagem já antológico.

Agora, falando um pouco mais da cerimônia: Jon Stewart novamente teve ótimo desempenho, acertando no tom político de algumas piadas (sempre de modo muito ácido) e nas brincadeiras com os artistas e filmes indicados (a com o Dennis Hopper foi impagável); foi tudo bem correto, e... errrrrrr... chato, mas bem mais curto e discreto que as edições anteriores (até o tempo do Oscar honorário foi reduzido – e logo um dos momentos mais legais da noite...). Bastante interessante também foram os clipes de discursos de cerimônias anteriores (alguma antigonas), lembrando-nos de alguns momentos marcantes.

Pra finalizar, meu top dos indicados a Melhor Filme (todos bons, no mínimo):

01. Onde os Fracos Não tem Vez (****1/2)
02. Sangue Negro (****)
03. Juno (****)
04. Desejo e Reparação (***1/2)
05. Conduta de Risco (***)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Call it... just call it



Enquanto não consigo escrever quatro linhas coerentes sobre o novo e fantástico filme dos Irmãos Coen, deixo aqui uma grande cena, a do cara e coroa, só pra não passar em branco mesmo. Ainda nessa semana deixo um comentário excessivamente entusiasmado, não percam! (digo isso para os fantasmas mesmo - ou nem eles lêem esse blog?!).

Ah, e não vai ganhar o Oscar; caso contrário, será um enorme avanço para a Academia. Vamos torcer, então.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

(2007, Tim Burton)



A primeira impressão que tive era a de que Tim Burton estava por demais acomodado em seu próprio universo, e todo aquele visual gótico simplesmente não estava causando tanta impressão em mim simplesmente porque... bem... é exatamente isso que se espera de um filme do homem; também tinha uma certa frieza e distância no modo como ele conduzia aquilo tudo que me incomodou. São primeiras impressões que aos poucos vão se desfazendo: o filme vai, lentamente, criando força, envolvendo, pra terminar em um terceiro ato extraórdinario, perturbador. Mas se há algo em Sweeney Todd de que nunca duvidei é a de que a decisão de colocar Burton por trás das câmeras é perfeita: ele sabe habilidosamente como construir a atmosfera de uma Londres em completa decadência (ou melhor, ele a compreende), mas nunca se deixando levar pelo mero exibicionismo, sabendo sempre como situar aqueles personagens terrivelmente amargos e psicóticos dentro do seu cenário. A violência é estilizada, mas também muito crua, especialmente na parte final, sem dúvida a mais trágica, sangrenta e apoteótica da carreira de Burton, que, se inicialmente me pareceu tratar o trabalho com certa impessoalidade, acaba por transforma-lo em uma obra extremamente segura e forte. Como se não bastasse, as canções são boas, e temos também um Johnny Depp genial, sempre se reinventando como ator.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

No Direction Home: Bob Dylan

(2005, Martin Scorsese)



Muito difícil (ao menos para mim) escrever um texto de qualidade e que faça completa justiça a um filme tão completo como este "No Direction Home". É, como toda crítica que já li a respeito do trabalho decide frizar, o encontro de dois gênios, um vindo da música (Ele, O Maior de Todos, Bob Dylan) e outro do Cinema, talvez o maior culpado pelo monstro-cinéfilo que me tornei, Martin Scorsese (e dizer isso é um clichê absurdo e que até me deixa um pouco constrangido, mas fazer o quê se é a mais pura verdade?). O retrato que o cineasta realiza do cantor é profundo: nos apresenta desde à sua infância em uma cidade localizada meio que "no fim do mundo" até o momento em que aquele bom jovem cantor de folk, considerado um dos maiores porta-vozes de uma geração (rótulo que Dylan abominava, como fica bem claro no filme), se transforma em uma espécie de "roqueiro rebelde" (na verdade, é muito difícil tentar definir em pequenos termos como esse "roqueiro rebelde" um artista tão complexo e genial como Dylan), iniciando a que talvez seja a grande fase de sua carreira (simplesmente porque Highway 61 Revisited é o melhor disco do mundo e Bringing it All Back Home é fácil um dos quinze maiores). É sempre muito detalhista, e o material de raridades, sejam fotos ou videos, coletado é impressionante, de fazer qualquer fã de Dylan cair pra trás (e o melhor de tudo é que a excepcional edição em um DVD duplo - aliás, meu aniversário está chegando e aceito de presente - nos entrega ainda inúmeros extras e registros de shows igualmente relevante). Scorsese também consegue com uma enorme competência apresentar um retrato sempre diversificado da figura do músico, um estudo que nunca pretende desvendar o seu enigma e sim preservá-lo: temos aqui o Bob Dylan-mito, o Bob Dylan-canto-de-protesto, ou simplesmente o Bob Dylan-ser-humano, aquele que parece totatalmente assustado quando recebe uma proposta de uma grande gravadora, ou aquele cara meio solitário e introspectivo e cansado da "cena", da "fama"... enfim, o retrato é múltiplo, complexo, e o que mais impressiona é que ainda consegue traçar um paralelo extremamente convincente entre as transformações do nosso protagonista e as mudanças socio-politico-culturais ocorrentes na época (algo que O Gangster, por exemplo, adoraria ter feito com sua trama, mas infelizmente não tinha nenhum Marty por trás). Tudo isso reunido em uns 200 minutos que, acreditem ou não, passam voando (de qualquer modo, recomendo uma pausa para respirar, comer biscoito e tirar água do joelho entre as duas partes em que o documentário é dividido). E se iniciei este texto com um clichê, termino com outro: "No Direction Home" é obrigatório para qualquer um que tenha um mínimo de interesse na carreira Dele, Bob Dylan. Pra ficar na cabeceira.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

2 filmes de Ed Wood

Um deles, horrível; o outro, agradável.

Jail Bait
(1954) - *1/2



Poderia ser (ou ao menos eu esperava, já que Ed Wood é famoso justamente por isso, ou tô enganado?) um daqueles casos de filmes que de tão ruins acabam por divertir o espectador, mas Jail Bait não consegue nem isso. A tentativa é a de imitar grandes clássicos do cinema noir; o problema é que é tudo muito pobre, seja esteticamente ou narrativamente: os diálogos são quadradões, cheios de frases feitas, e tudo é tão encenado que acaba soando falso, forçado; as soluções encontradas por um texto que não escapa da preguiça, do desleixo, também são bem previsíveis, tradicionais até demais. Se tem um mérito, é o de que, mesmo sendo tão fraco (fraco não, ruim mesmo!), dá pra esquecer logo quando aparece o"The End".

A Noiva do Monstro (1955) - ***



Esse já consegue divetir com eficiência. Se em Jail Bait o que imperava era a frieza, o descaso, em A Noiva do Monstro já podemos observar uma certa paixão, carinho de Wood por seu trabalho. É extremamente datado, e talvez isto até seja positivo, nesse caso em especial: o que antes talvez assustasse (ou nem isso, aliás), hoje já se torna agradável de se ver, um prazer nostálgico. Quem também contribui para elevar o nível do trabalho é, sem dúvida, Bela Lugosi, cujo exagero na expressão facial o torna ainda mais sinistro, monstruoso, a alma do trabalho; além de tudo, parece virar uma brincadeira um involuntária com os clichês do gênero (outro ponto em que o tempo ajudou). Boa diversão.

E Plano 9... já está na minha lista de "próximos a alugar".

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Dois filmes do Carnaval

Dois deles (os outros foram Juno, já comentado, No Direction Home, que vai ganhar um post só dele, Dylan/Scorsese merecem, e dois Ed Wood, que também vão ganhar um espaço só pra eles):

Batman (1989, Tim Burton) - ***



Burton é bastante competente na criação da atmosfera do filme, sempre muito sombrio, gótico e também na caracterização da cidade, que parece sempre aparecer imersa em sombras, caótica (algo que também estava presente no primeiro filme da série, que lembro gostar, mas vi há muito tempo, prefiro não comentar - mas, se vocês decidirem escavar os arquivos do meu finado blog, provavelmente encontrarão um texto sobre o trabalho na época do lançamento de Batman Begins!), mas também é o seu trabalho mais impessoal, bastante distante. Michael Keaton é muito insosso e inexpressivo, não se encaixa muito bem no papel, então quem acaba por roubar todas as cenas é o grande Jack Nicholson, em uma interpretação genial, diabólica, entregando um humor perverso que faz muito bem ao projeto; é aí que notamos que estamos vendo um filme de Tim Burton, mas é uma sensação que não se instala em todos os momentos, infelizmente (curioso para saber como Heath Ledger encarou o personagem, parece estar ainda mais macabro). Ganha maior força em seu terceiro ato, quando nos é apresentada uma importante revelação sobre o passado de Batman e que faz com que seu conflito com o Coringa ganhe mais densidade; o mais triste, no entanto, é que, mesmo sempre tentando nos mostrar um protagonista mais complexo, ambíguo, nunca se aprofunda completamente no personagem. O filme, realmente, é todo do Coringa.

A Vida de Brian (Life of Brian, Terry Jones, 1979) - ***



É um filme que já vale a pena ser visto por sua ousadia em satirizar (com muita crítica ao fundo) os filmes e a própria história bíblica; aqui, Jesus é Brian, um fracassado e covardão que, mesmo adulto, recebe e obedece ordens de sua mãe, sendo também um tanto obcecado por sexo e relutante em aceitar que talvez seja o Messias. O humor é absurdo, baseando-se na criação de siuações puramente nonsense, e que funciona em muitos momentos, mas não em todos: chega a um ponto que, por mais criativos que sejam os caras que formam o Monty Phyton, tudo aquilo me cansou um pouco, se esgota, e algumas situações eu acho bem bobinhas, fora que eles parecem não saber quando parar. No geral, é um bom filme que diverte, mas muito superestimado.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O Gangster

(American Gangster, 2007, Ridley Scott)



Tinha muitas chances de ser um grande filme, mas infelizmente o projeto caiu nas mãos de um cineasta tão apático e inexpressivo como Ridley Scott (já imaginou um De Palma ou um Michael Mann dirigindo uma estória dessas? Obra-prima na certa, ao invés de um trabalho que soa bem frio). Os tons épicos que o filme assume/deseja possuir parece auto-sabotálo, deixando-o não exatamente inflado, mas cheio de "gordurinhas", com um ritmo muito irregular (quase três horas que não passam voando, acredite - e o pior de tudo é que poderia ser mais simplificado). Tenta traçar um paralelo entre a trama central e importantes eventos ocorridos nos Estados Unidos da década de 70, mas a análise acaba por ser apenas superficial (aliás, o filme todo mais pretende do que cumpre). Se há algo de interessante, é como O Gangster possui interesse em nos apresentar à vida pessoal daqueles personagens (Frank Lucas é retratado como anti-herói e a escolha de um ao mesmo tempo cruel e carismático Denzel Washington para o papel é acertada - pode até estar interpretando ele mesmo, como alguns já afirmaram, mas me convenceu), ainda que alguns dramas e conflitos me pareçam bastante simplistas e banais (como o divórcio do personagem de Crowe). No final, Gangster acaba mesmo sendo um filme de máfia bem convencional, genérico e bem óbvio no seu retrato do "Auge e Declínio de um chefão do tráfico de drogas".

sábado, 26 de janeiro de 2008

Eu Sou a Lenda

(I am Legend, 2007, Francis Lawrence)



O blockbuster que deve ser tomado como inspiração para projetos futuros do gênero. Impressiona como consegue se sustentar em torno de um fiapo de história, especialmente nos dois primeiros atos, quando apenas vemos um excelente Will Smith (que consegue ser ao mesmo carismático e compreender todas as fragilidades de seu personagem, muitas vezes nos entregando uma interpretação realmente emocionada) realizando sua rotina pra lá de monótona, lutando para manter a sanidade e as esperanças. Surpreendente também é a direção de Francis Lawrence, muito segura e séria, conseguindo nos apresentar de modo bem crível o estado caótico da cidade de Nova York, com momentos bem silenciosos e melancólicos, que ajudam a realçar a solidão em que o protagonista está envolvido. Se tem um problema, ele está presente na personagem de Alice Braga, que para se mostrar mais do que uma solução do roteiro para que tenhamos um final otimista, poderia ter aparecido antes ou pelo menos ser mais explorada. No entanto, não é algo que chegue a impedir que Eu Sou a Lenda seja um belo trabalho.