sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Viagem a Darjeeling

(The Darjeeling Express, 2007, Wes Anderson)


A primeira parte, cuja ação se concentra na viagem de trem feita pelos três irmãos e algumas paradas para visitar alguns centros importantes da Índia, deve ser a mais irregular da carreira de Anderson: aquelas suas velhas caracteristicas me pareceram até um pouco exibicionistas em certos momentos (e vocês não sabem como é difícil ter que admitir isso; logo eu, fanzaço do cara) e o humor não funcionava com a mesma eficácia (achei até forçado e fácil demais).

O que mais impressiona, no entanto, é como Viagem a Darjeeling consegue se recuperar em seus dois últimos atos: é a partir daquela cena da despedida entre o personagem de Jason Schuartzman e a comissária de bordo que o filme realmente ganha um coração. E depois disso, meus amigos, Wes Anderson nos presenteia com uma quantidade considerável de cenas realmente lindas, comoventes (posso citar também o acidente e o enterro do garotinho indiano; a conversa dos irmãos ao som da música do E la Nave Va; e outras duas ja na parte final: os três e a mãe ouvindo a uma canção dos Rolling Stones e aquela "cerimônia da pluma" - se não as duas melhores, os dois momentos mais reveladores).

Toda quela discussão em relação à estética dos trabalhos de Anderson é sem dúvida alguma relevante, mas afirmar que são "todos iguais" (e firmar toda uma crítica negativa em torno disso não é o argumento mais convincente) me parece um pouco de má vontade também, já que as circustâncias sempre mudam: o cenário e a exploração deste em Viagem a Darjeeling são bastante singulares em sua filmografia (essa preocupação com os espaços externos, aliás, só aparece mesmo nesse e em A Vida Marinha, sendo que em Darjeeling, temos o deserto, e no outro, o oceano). Outro fator está no foco, sobre que ponto de vista a estória será contada: os dois filmes anteriores de Anderson (o já citado Steve Zissou e Os Excêntricos Tenenbauns), que também tem como peça central uma família desestruturada, são criados a partir da figura do pai, enquanto em Viagem a Darjeeling tal personagem sempre se mantém oculta, enigmática, representado apenas por um mudo Bill Murray, creditado apenas como "The Businessmen".

Agora o ponto de vista passa para os três irmãos que embarcam em uma "jornada espiritual" a ponto de conseguirem estabelecer uma maior proximidade; o problema, no entanto, é que pelo menos dois deles não estão exatamente interessados (Peter, vivido por Adrien Brody, ótimo; e Jack, interpretado por Schwartzman, outro que merece destaque), enquanto Francis (Owen Wilson - quanto à sua atuação, idem aos anteriores) segue no desejo de reencontrar a mãe. São figuras fragéis, inseguras, vivendo momentos decisivos em suas vidas e sem saber lidar com isso. Essa profundidade concedida aos protagonistas mostra que Anderson, mesmo com seus excessos estéticos (que só me incomodou mesmo na parte inicial - em toda a sua carreira, é bom deixar claro), nunca se esquece da área dramaturgica, fazendo com que cada personagem nos apresente uma faceta distinto, tornando Viagem a Darjeeling, mesmo com suas imperfeições, um trabalho extremamente acima da média.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A Via Láctea

(2007, Lina Chamie)



Eu poderia ter ficado muito irritado com aquele discurso repetitivo sobre o caos das cidades grandes caso esse filme de Lina Chamie não soubesse trabalhar muito bem com as paisagens de São Paulo, criando uma interação essencial entre personagem e o espaço. Também poderia ter achado pedante e pseudo-poético caso o filme não apresentasse uma paixão tão grande em experimentar cada possibilidade do Cinema, da montagem, que acaba por tornar A Via Láctea em um trabalho que pulsa, vivo, espontâneo (com isso, qualquer possibilidade de estar vendo uma egotrip foi descartada). Feito como se passasse na memória de um homem arruinado pela paranóia e obcecado com o seu relacionamento amoroso prestes a se acabar, com a confusão urbana somente dificultando seu já fraco estado mental. Vemos flashbacks, situações repetidas, às vezes com mudança de pontos de vista, uma trilha que entra e sai de repente (evocando Godard, de um modo que pode até parecer um pouco forçado), criando um anti-clímax em diversos momentos (a canção tema dos Looney Tunes, por exemplo), com uma estrutura que atinge seu máximo num belíssimo terceiro ato, quando tudo o que poderia parecer deslocado se encaixando muito bem. Tem também uma interpretação muito boa do Marco Ricca, e uma talentosa Alice Braga, mais bonita que nunca.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Gerry

(2002, Gus Van Sant)



Já fazia um bom tempo que queria revê-lo, mas só fui realmente pôr esse plano em prática no último sábado. Acho que eu deveria amá-lo, pois é um tipo de cinema que na maioria das vezes me gera interesse e porque eu sou um babão do Gus Vant Sant, mas eu infelizmente não consigo enxergá-lo como algo mais que um exercício de estilo que prepara terreno para as obras-primas que viriam depois da carreira de Van Sant. Traz uma força visual que não se encontra em todo o filme, com uma fotografia espetacular do Harris Savides; aquele plano sequencia em que os dois andam feito zumbis em um deserto cada vez mais branco, enquanto o dia nasce, continua me deixando boquiaberto, mas o problema é que no miolo o filme me parece já muito esgotado. É filme de uma idéia só, levada tão ao máximo que tem momentos em que me soa só como exibicionionismo, pedantismo. É a prova de que Van Sant é um dos maiores diretores em atividade, mas que consegue fazer grandes filmes com grandes idéias quando possui uma dramaturgia mais sólida.

sábado, 16 de agosto de 2008

Cloverfield

(2008, Matt Reeves)



Certamente vai ter muita gente detestando, ou no mínimo se incomodando, mas o efeito que Cloverfield causou em mim foi enorme. O formato que o filme apresenta (é todo feito a partir da ótica da câmera de um dos personagens, ou seja, a aparência é de vídeo amador - não em relação aos efeitos especiais, claro, já que não é todo dia que você pode ver a cabeça da estátua da liberdade voando) dá um tom extremamente visceral, torna a experiência clautrofóbica e sufocante, e até reiventa o que se entende por blockbuster: não é só mais um filme catástrofe com um único intuito de entregar uma diversão esquecível, segura, mas pede um maior envolvimento do espectador; na verdade, é um registro tão pessoal que fica até meio impossível não se deixar levar pela atmosfera apocalíptica apresentada pelo trabalho. Pode também ser visto como um retrato da paranóia, do pânico e do medo que se instalou na população nova-iorquina do pós-11 de setembro (e o caos que é instalado no filme pode muito bem ser uma metáfora à decadência de uma cidade). É bom também de observar que, mesmo possuindo inúmeras qualidades técnicas, Cloverfield não se foca apenas no lado estético, como também demonstra bastante preocupação com os conflitos pessoais dos personagens, e nas relações que foram esfaceladas devido ao ataque do monstro. É um filmaço.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Zabriskie Point

(1970, Michelangelo Antonioni)



Sempre tive uma certa dificuldade em digerir os filmes de Antonioni, mas há algo em seus trabalhos que me deixam fascinado, o que já foi o suficiente para que eu o colocasse em posição privilegiada no meu ranking de diretores favoritos (entre os italianos, só perde mesmo pro Leone). Foi com ele que comecei a conhecer o Cinema Europeu clássico (e, aliás, não sigam meu exemplo: se iniciem com Fellini), ao assistir A Aventura com uns 12 anos de idade, filme longuíssimo, dificílimo, mas que me deixou boquiaberto (não me pergutem o por quê, é o Cinema...). O mesmo aconteceu com obras como A Noite e Profissão: Repórter, e volta a ocorrer com este Zabriskie Point.

Dentro da filmografia do homem, esse é o que certamente mais se assemelha a Blow Up, especialmente pelo fato de serem falados na lingua inglesa (a não ser que você tenha do e-mule uma versão dublada em italiano, como aconteceu comigo) e por focalizarem a contracultura da época. Em relação a este tema, Zabriskie Point se aprofunda mais, ao relatar o embate entre jovens revolucionários e policiais, mas no meio disso tudo estão presentes os assuntos que mais obcecam Antonioni: a incomunicabilidade, o tédio e a alienação no mundo moderno. Mas, se em trabalhos como O Eclipse a atenção era voltada para o universo dos adultos, o foco agora é a juventude. A América retratada por Antonioni é aquela vivendo um período de profunda transformação, e o modo com que constroi os espaços representa bem isto: de um lado temos a cidade grande, ambiente tenso e sufocante, e do outro, servindo como um perfeito contraponto, temos a infinitude do deserto, o único lugar onde os dois protagonistas conseguem exercer plenamente seus desejos de liberdade e sexo, encontrando um meio de se isolar dos conflitos existentes no mundo externo.

Não espere, no entanto, críticas ou mensagens revoltadinhas anti-sistema (sim, isso foi uma indireta para Clube da Luta), até porque a conclusão que Antonioni entrega à estória é até bastante amarga e desiludida, apesar de que aquela extraordinária e emblemática sequencia de encerramento contem uma mensagem puramente subversiva (é como se tudo o que compõe o sonho americano estivesse sendo explodido naquele exato momento, ao som de Pink Floyd), tornando Zabriskie Point um dos mais subestimados e melhores filmes do mestre italiano.

domingo, 10 de agosto de 2008

Shangri-La



E Ray Davies continua completamente lúcido. Gênio. Mestre. Cantando a melhor música do Arthur. De chorar.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto

(Before the Devil Knows You're Dead, 2007, Sidney Lumet)



O único momento de sossego e felicidade que os personagens dessa estória terão está naquela cena de abertura, o sexo entre Seymour Hoffman e Marisa Tomei, um paraíso que dura apenas alguns minutos. A partir do momento que a tela escurece e o título é anunciado, “Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” transforma-se em um estudo minucioso do processo de degradação psicológica de seus personagens, que acabam por se auto-destruir meio que inconscientemente. Não há nenhum elemento que suavize a trama (lembra O Sonho de Cassandra nesse sentido, mas o filme de Allen, apesar de muito bom, não consegue possuir nem um terço da tensão desse filme do Lumet) e até aquela cena final, que por um momento sugere uma reconciliação, acaba se encerrando de modo terrivelmente amargo. O texto de Kelly Masterson (seu primeiro para os cinemas) é absolutamente brilhante e felizmente caiu nas mãos de um cineasta de extrema maturidade, que sou entregar a devida densidade ao trabalho, tornando-o algo visceral, sufocante. De início, nos faz pensar que se trata de um “filme de roubo”, e, se depender daquela primeira cena do assalto, veríamos um grande exemplar do gênero, mas “Antes que o Diabo Saiba...” deseja ir mais além, transformando-se uma espécie de tragédia familiar Shakesperiana, no mínimo quase uma obra-prima.

É também gratificante ver um filme que constrói uma narrativa fragmentada não para ser cool ou moderninho, e sim porque certamente foi o melhor meio encontrado para que pudesse ser feito um panorama geral da situação, beneficiando o desenvolvimento dos personagens. Outro grande destaque são as atuações, com um elenco todo excepcional: Seymour Hoffman é um monstro, fenomenal, e Albert Finney e o sempre subestimado Ethan Hawke não ficam atrás, ambos muito bem. Sidney Lumet, felizmente, parece continuar em grande forma.