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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Minha Esperança é Você

(A Child is Waiting, 1963, John Cassavetes)



É o terceiro filme do Cassavetes e, se não me engano, o primeiro em que o cineasta não é seu próprio produtor. Minha Esperança é Você teve produção de Stanley Kramer (quem só conheço de nome), com Cassavetes se encarregando da direção por recomendação do roteirista. O próprio cineasta falou: "I didn't think his film - and that's what I consider it to be, *his* film - was so bad, just a lot more sentimental than mine." Engraçado, essa é exatamente a minha opinião. Fica realmente evidente em Minha Esperança é Você que Cassavetes é aqui um estranho no ninho, sem a liberdade que vemos em Shadows ou Amantes (tanto é que não teve direito ao corte final, sendo demitido no processo de montagem). Não sou profundo conhecedor da obra do cara (fora os dois que citei, só vi Husbands), mas dá pra perceber que certas escolhas não foram dele, especialmente em relação à trilha sonora asquerosa, que enche o filme de um sentimentalismo desnecessário (incrível como ela chega a atrapalhar em alguns momentos), apelando pra chantagem emocional, que é o que de mais sujo um filme pode fazer, limitando a crueza emocional que Cassavetes evidentemente queria atingir. Mas, sim, existem momentos em que a mão do cineasta é visível e em que essa crueza é sentida; destaco, como exemplo, as cenas da conversas entre a personagem de Judy Garland com a de Gena Rowlands (novinha, linda); aquela entre Burt Lancaster e o garoto com problemas mentais; Garland cantando com os seus alunos enquanto seus olhos se enchem de lágrimas; a sequencia final, a peça de teatro (estragada novamente pela quantidade de açúcar exagerado lá pelo seu fim - a trilha sonora, lá de novo); e a inicial, que me fez acreditar que iria ver mais um filmaço do Cassavetes. Não o é, definitivamente, mas, como eu já citei, tem seus pontos altos (mas o baixos às vezes pesam mais).

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Dúvida

(Doubt, 2008, John Patrick Shanley)



Às vezes Dúvida me lembra "O Leitor" (o que nunca é bom), devido especialmente ao seu tom friorento que parece seguir o "padrão de qualidade britânico". No entanto, não consigo chamá-lo de enlatado, como aconteceu com o filme de Stephen Daldry, já que ele parece mais interessado em desenvolver o seu lado dramatúrgico (enquanto "O Leitor", nesse ponto, é muito mais burocrático e previsível). Dúvida é oriundo do teatro, adaptado de uma peça ganhadora do pulitzer escrita pelo próprio diretor do filme, então não assusta o seu interesse em explorar o texto (e faz muito bem ao adotar uma postura imparcial aos ocorridos, sem nunca deixar claro o que realmente aconteceu). Visualmente, parece ser um trabalho pensado para o Cinema, mas há alguns pontos que o filme infelizmente não consegue se distanciar do teatro (não que haja alguma coisa de errado com este - pelo contrátrio -, mas acredito que essas duas artes tenham divergencias em certos pontos), com um conteúdo visivelmente encenado, algo que pode se evidenciar em alguns diálogos (toda a sequencia da discussão entre Streep e Hoffman nos 20 minutos finais ou a horrível cena final, por exemplo). Meryl Streep, aliás, é um dos maiores defeitos do trabalho, com a sua performance totalmente over e caricatual(Hoffman, ao contrário, faz um trabalho mais digno). Me incomoda muito também como a própria construção da personagem parece exagerada, virando uma espécie de antagonista sem sentimentos; para um filme que aborda um tema tão delicado, um pouco de humanidade e naturalidade não fariam mal a ninguém.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Duplicidade

(Duplicity, 2009, Tony Gilroy)



Depois do seu imensamente hypado filme de estréia, "Conduta de Risco", um trabalho ao mesmo tempo superestimado e subestimado, que carrega um tom sóbrio e um tanto distanciado, é interessante que o filme seguinte de Tony Gilroy seja uma obra bem mais leve e com uma atmosfera bem diferente daquela apresentada em "Conduta...", apesar de que o foco também seja nas grandes corporações. "Duplicidade" se aproxima bem mais daquele cinema mais pop e "com classe" de um Steven Soderbergh da fase "Oceans", mas infelizmente Gilroy parece ser um cineasta bem menos virtuoso e mais inexpressivo no seu modo de conduzir a trama. Um dos pontos mais interessantes de "Conduta de Risco" é como o próprio filme parece cansado desse mundo complexo das multinacionais, sentimento expresso em seu protagonista. Seu novo longa, no entanto, parece desenvolver esse mesmo tema de um modo muito mais previsível, talvez até burocrático, com as usuais milhares de reviravoltas bem comum de se ver no gênero (mas a do final é bem boa, tenho que dar o braço a torcer). O maior problema é que as duas tramas existentes em "Duplicidade" não se casam muito bem: uma delas, envolvendo o familiar (para Gilroy, claro) mundo das corporações, e a outra, muito mais interessante, sobre o relacionamento entre os dois protagonistas, vividos por Clive Owen e Julia Roberts, de onde o filme tira os seus melhores momentos.

sábado, 6 de junho de 2009

Império dos Sonhos

(Inland Empire, 2006, David Lynch)*


C'mon do the locomotion

O mundo dos sonhos e o imaginário sempre assuntos-chave na carreira de David Lynch, especialmente em sua fase pós-Twin Peaks. Em Inland Empire não é diferente, mas o que torna a experiência deste projeto ainda mais transgressora é o fato de que o próprio filme parece se estruturar como um sonho, delírio ou alucinação. Lynch renega a linguagem convencional, misturando tempos distintos, atores e personagens (reais ou ficcionais), de modo que a construção do filme pareça ser totalmente contínua, sem início, meio ou fim. Se tentarmos juntar as pontas, poderemos até encontrar em Inland Empire um filme sobre uma mulher atormentada por traumas ligados ao sexo masculino e ao ato sexual em si (vemos Dern contar alguns deles para um personagem misterioso, em uma espécie de monólogo). No entanto, o que torna quase impossível formular qualquer explicação acerca do que se passa é que a Laura Dern-atriz-bem-sucedida que vemos no início se ramifica em diversas outras, personagens saídos da memória, do futuro ou mesmo personagens ficcionais interpretados por ela anteriormente (ou futuramente, já que não temos a mínima noção de tempo ou espaço). Soma-se a tudo isto uma crítica a Hollywood já presente no filme anterior de Lynch (Cidade dos Sonhos, outra obra-prima), apresentando-nos a uma terra de ilusões, em que até a calçada da fama não é um lugar de brilho, e sim refúgio de prostitutas e mendigos.

Não sou um profundo conhecedor da história ou da linguagem cinematográfica, mas se já foi feito experimento maior com montagem, iluminação, trilha sonora ou câmera (Lynch filma pela primeira vez - e talvez última, pois realmente acho que Inland Empire é a conclusão perfeita para toda uma carreira - em digital, com uma qualidade de imagem mais baixa, o que causou um estranhamento de início, mas depois Lynch nos mostra quais são as vantagens do formato) em um longa-metragem, eu nunca vi, e gostaria que me dessem um exemplo. É o ápice da filmografia de um diretor, e o que vier a seguir é regressão, pura e completa regressão.

*Texto feito há uns 2 anos, quando vi o filme no cinema. Só fui descobrir que o tinha arquivado como rascunho no blog dia desses, e resolvi postar.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Os Imperdoáveis

(Unforgiven, 1992, Clint Eastwood)



Os Imperdoáveis é considerado como uma ressucitação do faroeste, mas acredito que esteja mais para epitáfio. O filme foi feito em 1992, mas, 40 anos antes, Will Munny, um "conhecido ladrão e assassino, homem de temperamento cruel e intempestivo" (o personagem de Eastwood que talvez mais se aproxime do recente Walt Kowalski, de Gran Torino - Dirty Harry? Juro que nem pensei nele) seria o pefeito vilão de um trabalho clássico do gênero. No entanto, o filme já nos apresenta a um Will Munny corroído pela culpa, já na velhice, sem nenhuma perpectiva, talvez o destino de todos os grandes personagens dos faroestes. O seu parceiro, interpretado por Morgan Freeman, conserva algumas de suas antigas habilidades, mas, como podemos notar quando ele se recusa a continuar acompanhando os seus dois amigos, matar um homem parece ser a última coisa em que pode imaginar. O tempo passou, aqueles heróis não são mais os mesmos, e o que torna Os Imperdoáveis uma obra tão amarga é justamente o fato de ter uma consciência muito forte disso, de modo que, por mais que seja um trabalho obviamente clássico, que nos remete diretamente a John Ford ou Howard Hawks, não tem nenhum desejo de realizar um "revival". Um personagem que talvez ainda possuisse alguma capacidade de se tornar um herói do gênero é Scofield Kid, mas, logo após matar seu primeiro homem, percebe que aquela vida simplesmente não é pra ele. Não há nenhuma visão romântizada da violência em Os Imperdoáveis, com a morte nos mostrada nua e crua, sendo a sua inevitabilidade o grande tema do trabalho (além de perda e culpa, que estão presentes em quase todos os trabalhos de Eastwood).

Já no terceiro ato, Will Munny, que no início mal conseguia montar em seu cavalo, volta a ser um assassino de sangue frio, aquele que antes matava tudo que andava ou rastejava, mas, agora, não por maldade, e sim por uma questão de fraternidade, pra defender a honra de seu amigo (algo que está presente de modo muito forte em Hawks e Ford). Não é, de modo algum, uma redenção; talvez o protagonista nem quisesse "ressucitar" daquele jeito, se lembrando do homem impiedoso que era no passado. Portanto, será que também seria necessário ressucitar o faroeste? Será que para esse gênero, assim como acontece com quase todos os personagens de Os Imperdoáveis, a morte não seria algo iminente e inevitável? Já próximo dos créditos finais, somos avisados, de um modo muito vago, do possível destino do personagem: "disseram que foi para San Francisco e que lá prosperou como dono de armazém". Disseram. Assim como acontece com o próprio Western, o seu fim permanece um enigma.

PS: Me desculpem pela ausência de uma semana. Vou tentar atualizar mais, talvez com algumas notícias de Cannes.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Fay Grim

(2006, Hal Hartley)



Já seria muito abaixo da média somente por causa daquele tique desnecessário e imaturo de enviesar a câmera para 95% das cenas (o que ele quer provar com isso?), mas Hartley decide não apenas assassinar Fay Grim como também o filme que o antecede, As Confissões de Henry Fool (que ganhou Roteiro em Cannes em 97 e tem um bom número de fãs - apesar de que bem antes disso Hartley já era uma sensação indie), o trabalho mais conhecido do diretor. Acho muito superestimado, mas é um bom filme, sem dúvidas. Fay Grim retorna aos mesmos personagens, tendo como protagonista a personagem-título, interpretada por Parker Posey, que em Henry Fool desempenhava papel coadjuvante, a irmã de Simon, o lixeiro que se revela um grande poeta, descoberto por Henry. Primeiramente, não vejo motivo para se realizar uma continuação se você não está interessado em explorar, melhor desenvolver esses personagens. São figuras bastante interessantes, mas que aqui são reduzidas a marionetes de uma egotrip, nada mais que uma desculpa fútil para resgatar um antigo sucesso. O mais engraçado é que em Fay Grim há um diálogo que pode resumir muito bem todo o filme: nele, dois personagens conversam sobre "Confissões", série de livros escritos por Henry; um deles pede para que o outro procure ver o que há, na obra, por trás de toda a auto-indulgência masturbatória ou as discussões autocentradas; o outro retruca, perguntando se sobraria alguma coisa. Pois é, Hal Hartley, além de genial, "ousado e inteligente" (como define um crítico na contracapa do DVD), também entende de metalinguagem.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Um Conto de Natal



O que mais me veio à cabeça ao ver este Um Conto de Natal é que ele é tudo o que O Segredo do Grão, do duas vezes vencedor do César Abdel Kechiche, queria ter sido. Não quero me aprofundar muito nessa comparação, porque elas geralmente são bem chatas, mas existem evidentemente alguns pontos em comum partilhado entre esses dois filmes, como o fato de ambos se interessarem em explorar as relações familiares e por aparentemente se alongarem sem motivo. Digo "aparentemente" pois acho que é um problema que atinge muito mais o trabalho de Kechiche que o de Desplechin (que há cinco anos fez a obra-prima Reis e Rainha). Em O Segredo do Grão há a necessidade de se criar uma espécie de épico familiar, enchendo linguiça com algumas que ao meu ver se alongam desnecessariamente, parecendo que o diretor teve que criar cenas adicionais para que o trabalho chegasse a tal duração, enquanto Um Conto de Natal se prolonga de um modo muito mais natural, com uma narrativa fluida (quase jazzística) que faz com que a duração dificilmente seja sentida (será que sou o único que poderia passar mais uma hora dentro do cinema acompanhando aqueles personagens??), e também porque o Desplechin possivelmente o escreveu/filmou tão excitadamente que acabou perdendo o controle do material. Sim, talvez seja uma obra um pouco descontrolada e gorda (apesar de que a montagem parece dar conta de tudo), mas tá bom demais do jeito que ficou: um registro vivo e extremamente caloroso e complexo dos relacionamentos humanos, valorizando e se aprofundando em cada um daqueles personagens (outro motivo pelo qual o filme precisa se alongar um pouco), fugindo de todo tipo de clichês que geralmente dominam filmes sobre "famílias desestruturadas" (todo diretorzinho indie devia ter esse como filme de cabeceira). Dificilmente seria tão bom se não tivesse um elenco gigantesco por trás: além de Catherine Deneuve, temos Mathieu Almaric, gênio e melhor ator de sua geração, Chiara Mastroianni, Emmanuelle Devos e belas performances de Melvin Poupald (o cara do O Tempo que Resta) e principalmente de Anne Consigny (que interpreta a filha mais velha), que já atuou com Almaric em O Escafandro e a Borboleta. Grande filme mesmo.

sábado, 18 de abril de 2009

Ghost Dog

(1999, Jim Jarmusch)



Em Dead Man, Jim Jarmusch pegou elementos do western, jogou no liquidificador e fez um filme muito estranho se pegarmos como referência a história do gênero, mas que se encaixa com perfeição dentro da filmografia do cineasta. Ghost Dog foi feito 4 anos depois e serve como uma sequencia natural: nada a ver se pegarmos a trama como exemplo, mas dá continuidade a esse processo de desmitificar certos gêneros que Jarmusch iniciou em Dead Man. Se naquele Jarmusch procurava reconstruir o faroeste, Ghost Dog entra em um território ainda mais amplo, o dos filmes de gangsters ou os de samurai, desconstruindo o tempo todo caricaturas e criando personagens totalmente inusitados (há, por exemplo, um mafioso que curte Public Enemy e o próprio protagonista, um samurai negro). Jarmusch sempre se interessou em fazer retratos da América, mas em Ghost Dog ela se apresenta do modo mais diversificado (etnica e culturalmente) possível, como esses dois personagens citados podem comprovar (além, é claro, de Raymond, um sorveteiro haitiano que não sabe falar inglês, mas que curiosamente é o melhor amigo do protagonista). O ritmo, como sempre, é pausado e lento, mas é um filme que vai surpreendendo com o passar do tempo, se mostrando extremamente denso, especialmente no sangrento terceiro ato, com elipses que me levaram de volta à atmosfera de Onde os Fracos Não Tem Vez. Ghost Dog, o personagem, também é o típico herói jarmushiano, mas não sendo apenas um esteriótipo; é alguém que parece desconectado com a ordem do mundo atual (alguns personagens o comparam à antigos gangsters, outros dizem que seu nome é símilar aos índios ou aos atuais rappers) que procura seguir as regras antigas (a excelente cena envolvendo caçadores de urso deixa isso bem claro). Desse modo, o desfecho trágico, em que o faroeste de Dead Man é retomado, me parece mais do que apropriado.

PS: Destaque também para a ótima trilha sonora do RZA, a cabeça do Wu Tang-Clan (e não me surpreenderia se Jarmusch tivesse se inspirado no grande Enter The Wu-Tang para fazer este Ghost Dog).

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Longe do Paraíso

(Far From Heaven, 2002, Todd Haynes)



Era um filme que estava interessado em rever desde que eu vi o Não Estou Lá e o ótimo Veneno, mas acabei deixando pra depois e só fui me lembrar de aluga-lo dia desses (havia visto já há um bom tempo, na época do lançamento do DVD, se não me engano). Acaba confirmando que Haynes é realmente um dos melhores cineastas em atividade no momento, e que consegue impor sua marca mesmo em um filme menos vanguardistas. É todo desenvolvido como um melodrama clássico, mas acaba seguindo um caminho muito próprio: passa longe de ser frio e impessoal, como todos aqueles filmes enlatados para o Oscar, mas também não segue uma linha muito Clint Eastwood (apesar da delicadeza apresentada aqui seja a mesma), o que melhor sabe lidar com esse gênero atualmente; se quisermos falar de filmes com temas similares, Longe do Paraíso também se afasta de um "cinismo" à Beleza Americana (ou da sobriedade da excelente série televisiva Mad Men). O que Haynes faz aqui é pincelar com cores fortes e chamativas um mundo aparentemente perfeito, mas que no fundo se revela artificial e tão desestruturado como qualquer outro. Em uma determinada cena, por exemplo, a personagem de Julianne Moore pergunta ao seu jardineiro, vivido por Dennis Haysbert (de 24 Horas), se é possível enxergar através da superfície, e o mais interessante é que isso não apenas se relaciona com o contexto do filme (que tem como um dos principais temas o racismo) como também com essa própria questão estética. Aliás, o uso forte das cores no cinema de Haynes não é novidade, já que é algo que se pode notar em Não Estou Lá ou em Veneno, mas aqui ganha um foco principal. É realmente de impressionar como ele compõe todo esse colorido, seja por uma luz azul forte que parece dar mais melancolia ou densidade a uma cena, ou por aquele passeio no parque entre Moore e Haysbert, que consegue ser muito vivo e lírico visualmente sem parecer fetiche ou excessivamente plástico. Na verdade, o filme é todo tão natural quanto essa cena.

segunda-feira, 30 de março de 2009

The Great Train Robbery

(Edwin S.Porter, 1903)



Uma bela surpresa esse curta-metragem de 10 minutos feito já há mais de 100 anos, dirigido por Edwin S. Porter e que é não apenas um dos mais famosos exemplos de bom cinema feito na época em que a 7ª arte ainda engatinhava e um dos primeiros filmes de narrativas ficcionais, como também é o primeiro grande western que se tem notícia. A estória é simples e o título já resume muito bem sobre o que The Great Train Robbery é (então já descobriram, né?). O melhor de tudo é que a narração segue uma linha extremamente ágil, seca, direta ao ponto, sem nenhuma frescura (além de ser uma estória trágica e violenta e realista, especialmente para os padrões da época). A cena final, no tireoteio, é, aliás, excelente, com um uso realmente perfeito da trilha.

O filme pode ser encontrado no e-mule, mas também está disponível no you tube (e foi onde eu assisti, com o vídeo devidamente baixado). A qualidade é bem abaixo da média, mas acho que dificilmente pode ser encontrado coisa melhor. Aliás, o cinema desse período é um dos que mais tem me interessado; bastante coisa importante ainda não foi vista: Fritz Lang só conheço alguns sonoros, Eisenstein só vi um (Outubro, semana passada) e ainda bastante coisa boa do Buster Keaton (como A General) e Murnau (Nosferatu, Fausto) que ainda não assisti, além de outros clássicos do expressionismo alemão e cinema soviético (Robert Wiene, Pudokvin, e a lista segue...), que devem ser o que de melhor foi feito no período mesmo.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Dois Filmes de David Gordon Green

Contra Corrente (Undertow, 2004)
Segurando as Pontas (Pineapple Express, 2008)



Contra Corrente pertence a um tipo de Cinema profundamente interessado em despertar nossos cinco sentidos, todas as sensações possíveis (como o personagem do irmão mais novo, que experimenta os mais diferentes tipos de "alimentos" - tintas ou terra, por exemplo). Algumas firulas estéticas se justificam até muito bem, já que é também um Cinema que busca escapar de todo formalismo, alcançar uma máxima liberdade visual e de expressão (algo que, por sua vez, está expressa na rebeldia do personagem de Jamie Bell). É evidentemente inspirado em Malick, especialmente quando ele passa a explorar a relação entre os dois irmãos e o espaço que os cerca (há a poesia visual de um O Novo Mundo, mas também uma atmosfera - construída de modo impressionante - de alienação de um Badlands, já que os personagens vivem quase que totalmente isolados do mundo ao seu redor), mas acaba possuindo uma narrativa muito própria, pessoal e espontânea.



Pineapple Express, por outro lado, não carrega uma forte marca, até porque se trata de uma comédia misturada com ação (apesar de que em um ou outro momento dá pra perceber a "mão" dele, como naquela cena em que os dois protagonistas "brincam" feito duas crianças no meio do mato - não é o que vocês estão pensando -, uma espécie de delírio emaconhado), mas um dos grandes trunfos de Gordon Green aqui é justamente deixar os atores interpretarem o texto do modo mais livre possível, favorecendo o improviso, e essa é sempre as maiores qualidades dos longas estrelados pela trupe do Judd Apatow (o que há de melhor na comédia atual, de longe). Muita gente vai dizer que é filme de uma piada só (o que, vá lá, é uma verdade), que em um certo ponto a coisa toda satura, mas a quantidade gigantesca de gags e diálogos geniais, que passam muito longe de qualquer discurso politicamente correto, compensam bastante.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Watchmen

(2009, Zack Snyder)



É certamente irregular e infladíssimo, algo que começa a surtir efeito depois da primeira metade, quando fica percebível que é realmente um trabalho sem muito foco e descontrolado, com um conteúdo amplo e complexo demais para um diretor sem muita experiência como o Zack Snyder. Eu precisaria ler a graphic novel do Alan Moore (que parece ser uma coisa fenomenal mesmo) antes de dizer isso, mas eu acho que poucos cineastas conseguiriam fazer uma adaptação redonda de uma obra que parece ser tão extensa. De qualquer modo, é um filme que faz companhia ao Speed Racer nessa seara dos blockbusters que nos fazem questionar o quanto de autoral pode existir em filmes assumidamente comerciais como esses. Ainda que me pareça exagerado e equivocado identificar Snyder como um autor ou coisa do tipo, é fácil de notar certos elementos que parecem lhe obcecar, como o uso enorme de tomadas em slow motion (que também pode facilmente ser tomado como um tique ou limitação - e infelizmente acho que tendem mais para esse lado mesmo). É algo que me incomodava demais no 300, que me parecia apenas um exercício muito fútil e exibicionista, mas que aqui ganha maior "corpo", uma narrativa que se aproxima bem mais da cinematográfica. Tudo parece feito para construir uma atmosfera, nos levar a uma outra dimensão, nos deslocar da realidade. Como experiência visual é um filme extremamente bem sucedido e mais arriscado (especialmente em relação ao uso da violência) que 90% das adaptações de HQ que se tem por aí (e incluam aí os dois últimos Batmans). Eu tinha tudo pra odiar, mas o fato de ser um trabalho tão inusitado (a abertura, genial, prova isso) e imprevisível acabou me agradando.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Milk

(2008, Gus Van Sant)



Por mais que eu goste de Gênio Indomável e, em menor intensidade, de “Encontrando Forrester” (um trabalho menor e irregular, mas ainda assim subestimadíssimo, que possui uma meia hora maravilhosa, mas que se perde bastante a partir do fim do segundo ato) e acredite que ambos apresentem, sim, um tipo de cinema bastante particular (especialmente devido ao enfoque na juventude), faltava a este dois filmes um mesmo ingrediente: Van Sant ficava no limbo entre um cinema comercial e um mais pessoal, barreira essa ultrapassada por Milk.

Se Paranoid Park nos apresentou a um cineasta no auge de sua criatividade, Milk funciona justamente como um prolongamento da maturidade artística de Van Sant, um diretor com completo controle sobre o material a ser filmado, que aqui é extremamente extenso, já que temos não apenas cenas ficcionais como também uma série de imagens de arquivo, que se casam com perfeição em uma narrativa que flui incrivelmente bem, talvez de um modo tão espontâneo e flexível como o de Paranoid. Aliás, a narração em off do protagonista seria até um pequeno “senão” para mim, talvez devido a um certo didatismo, mas é algo que se justifica bastante dentro do objetivo do filme, que é o de fazer um registro dos acontecimentos do modo mais fiel possível, quase documental (na verdade, é um trabalho que tem uma herança tão forte do documentário que em uma hora ou outra eu me lembrei do Errol Morris). Um registro que, repito, passa longe do impessoal: Milk é um filme sempre muito caloroso e cheio de vitalidade, que capta com perfeição a atmosfera da época, uma época de transformações, um relato feito com muita excitação. E, vá lá, em quantos filmes “convencionais” você vê uma sequencia como aquela dos assassinatos, com um trabalho tão primoroso feito entre som e imagem? (fotografia do genial Harris Savides é excepcional, por sinal; um dos maiores pontos fortes). Pode ser mais linear, comercial e não ter uma carga experimental tão forte, mas é, ainda assim, um filme de Gus Van Sant.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O Leitor

(The Reader, 2008, Stephen Daldry)



Infelizmente é um daqueles filmes que todo mundo já esperava: inexpressivo, excessivamente formal, impessoal e distante, daqueles que imploram por pelo menos uma indicação ao Oscar (nem que seja de Melhor Maquiagem) e por um status de filme britânico por excelência, sério e respeitável (mas que também é o anti-cinema autoral). Tanto tecnicamente quanto dramaturgicamente é um filme que não ultrapassa o televisivo, daqueles que podiam muito bem ser exibidos no quadro "Mulheres no Cinema" da GNT, que minha mãe de vez em quando assiste. É um filme que aborda o assunto da descoberta do corpo, mas obviamente não tem a ousadia de se aprofundar no tema (há sexo, mas não existe nenhuma tensão entre aqueles corpos), já que Daldry prefere fazer um drama sério e respeitável (e, consequentemente, britânico por excelência) sobre o holocausto, vencedor de 17 Oscars, com Kate Winslet (que envelhece sob quilos de maquiagem e grita em uma cena de tribunal - tem como não premiar ela?) e grande elenco.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Beleza Americana e Foi Apenas um Sonho

(American Beauty, 1999, Sam Mendes)
(Revolutionary Road, 2008, idem)



Por alguma razão eu adorava Beleza Americana, mas revendo nos dias de hoje eu só percebo como ele é simplista em toda a sua crítica "ferina" ao american way of life (ainda mais vendo-o semanas depois do excelente Longe do Paraíso). Pra começar, o personagem de Spacey parece existir apenas para jogar um monte de frases feitas que são colocadas ali apenas para que o filme reforce o tempo todo seu ponto de vista (percorre sempre o caminho mais fácil para apresentar ao espectador sua mensagem, chega quase a ser didático). Não consigo entender esse "novo eu" que o próprio protagonista define, já que o filme simplesmente não demonstra nenhuma transformação que tenha ocorrido com ele, desde o início funcionando apenas como uma ferramenta utilizada para desmascarar a hispocrisia dos subúrbios (e os outros personagens parecem receber o mesmo tratamento superficial). O pior é que personagens como o do Chris Cooper não são satíricos, o filme realmente parece acreditar que caricaturas como aquela existem na vida real (e a reviravolta envolvendo ele me soa muito a "Crash"); são seres de plástico, muito longe de representar a tal "realidade" que o filme insiste em querer mostrar. O engraçado é que a tagline ("Look Closer...") parece ser até um aviso pro Sam Mendes, que tem uma direção bastante inexpressiva e passiva.



Já com Foi Apenas um Sonho... nada muda muito. É realmente frustrante ver um cineasta que não consegue aprender com os erros e faz um filme com temática semelhante repetindo praticamente todos os defeitos que eu apresentei logo acima. Há as mesmas frases de efeito que parecem ser ditas para que a cada minuto (literalmente) o filme possa ressaltar toda a insatisfação dos personagens em relação a sua vida pessoal, à hipocresia da vida nos subúrbios e todo aquele blá blá blá (novamente opta pelo caminho mais fácil - e, consequentemente, mais preguiçoso - para nos apresentar essas frustrações dos protagonistas, de modo que esse Apenas um Sonho também me soe muito superficial, sem naturalidade, tudo muito encenadinho, quase teatral). Eu não quero que o Mendes seja um novo Cassavetes (quer dizer, eu bem que queria, mas também não vou cobrar uma coisa dessas, né?), mas é infelizmente um cineasta bem comportado demais e com a mão pesada, então é um filme que infelizmente não ganha toda a intensidade que merecia. Na verdade, há um único momento, uma briga decisiva lá pelo terceiro ato, em que os personagens realmente parecem vivos, mas isso também é culpa da grande entrega da Winslet e do Di Caprio ao seus papéis, que conseguem elevar um pouco o filme (o Michael Shannon rouba a cena quando aparece, mas fica a sensação de que é um personagem que podia ter rendido mais - apesar dos tiques). Nesse ponto, é um filme que se localiza um degrau acima do Beleza Americana, mas ainda assim os pontos fracos pesam bem mais.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A Troca

(Changeling, 2008, Clint Eastwood)

http://www.dvdrama.com/imagescrit2/t/h/e/the_changeling_eastwood_1.jpg

É inegável que é um filme com problemas, quase todos relacionados ao modo como é retratado o departamento de polícia e o hospital psiquiátrico (apesar de que não é em nenhum momento um filme de “o mundo todo contra uma personagem”), mas esse aparente maniqueísmo vai perdendo a força com o passar do tempo (especialmente no excelente terceiro ato), de modo que não acaba pesando tanto contra o filme. Nas mãos de um Ron Howard, um texto desses poderia render simplesmente um dramalhã descerebrado e enlatado, mas Clint sabe como poucos criar um melodrama com a quantidade certa de açúcar, muito contido e extremamente sincero (a intenção aqui não é ganhar Oscars ou qualquer outra coisa do tipo; é simplesmente de contar uma estória), o que faz de A Troca um filme clássico em pleno século XXI (e eu sei que falar isso do Clint é um chavão gigantesco, mas, enfim...). Também é um caso raro de filme que consegue aproveitar muito bem sua longa duração (e não são muito sentidos – ao menos por mim – devido a segurança de Eastwood em conduzir suas narrativas), sendo “A Troca” uma espécie de pesadelo crescente, com momentos tão intensos e angustiantes como um “Sobre Meninos e Lobos”.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dois Filmes de Jim Jarmusch

Primeiramente, vão me desculpando a falta de atualizações (apesar de eu achar que realmente ninguém se importa), e o pior de tudo é que dessa vez é por descaso mesmo, já que atualmente tenho tempo livre de sobra. Tô vendo muitos filmes e vou tentar deixar de preguiça e escrever sobre o que eu tenho (re)visto dos Irmãos Coen e do Billy Wilder. Enquanto isso, coloco aqui dois textos que havia feito já há algum tempo, mas só agora passei a limpo.

Dead Man (1995)


É um típico filme do Jim Jarmusch, com a diferença de vir transvertido de western, o que certamente só melhora a experiência de vê-lo. O ritmo lento e pausado que caracterizam a obra do cineasta se encaixa muito bem dentro desse gênero, mas os seus elementos são reconstruídos de modo que possam adentrar melhor no universo jarmuschiniano: o protagonista vivido por Johnny Depp, assim como o John Lurie de Estranhos no Paraíso ou o Bill Murray de Flores Partidas, se encontra completamente desorientado, uma pessoa ainda à procura de um lugar, perdidos em um ambiente desconhecido. Com o passar do tempo, Dead Man também ganha uma conotação mística, especialmente devido ao personagem do índio, cuja construção passa longe do convencional (é um homem solitário e que ajuda o protagonista a ganhar um maior conhecimento espiritual). É uma espécie de jornada existencial e também um trabalho bastante atemporal: não parece de modo algum ter sido feito em 1995, mas também passa longe de ser um faroeste dos anos 40/50. Deve estar perdido em um lugar qualquer, assim como todos os heróis de Jim Jarmusch.

Down By Law (1986)

A imagem “http://www.bergen-filmklubb.no/images/Down_by_Law.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

Down by Law confirma qual é o verdadeiro foco e principal obsessão do cinema de Jim Jarmusch: contar estórias sobre desajustados. Por isso mesmo se aproxima bem mais de um Estranhos no Paraíso (um belo filme, mas um tanto decepcionante - e acabou não ganhando foco nesse texto porque já o vi há bem mais tempo que esses outros dois) do que de um Dead Man, que, como disse acima, vem embalado de filme de faroeste. Por outro lado, são dois trabalhos que se aproximam bastante devido àquela atmosfera meio lírica (não sei se esta é a palvra correta, mas enfim...). Os personagens mais uma vez se encontram perdidos em uma América desolada, homens solitários buscando o "lugar certo"; são autênticos "rain dogs", "outsiders" por excêlencia (talvez por isso mesmo que a escolha do genial - tanto como músico quanto como ator - Tom Waits para viver um dos protagonistas é mais do que acertada).

Possui certas irregularidades no ritmo, mas nada de imperdoável: a primeira meia hora é toda muito boa (assim como a linda sequencia de abertura com Jockey Full of Bourbon, uma das minhas canções favoritas de Waits), mas o filme cai um pouco na parte seguinte, nas primeiras cenas na prisão, recuperando-se de vez com a entrada de Roberto Benigni, ator que geralmente acho insuportável, mas que aqui possui uma performance genial, memorável (pode não ser a alma de Down By Law, mas certamente é o coração). E é mais ou menos a partir da famosa cena do "We All Scream for Ice-Cream" (que devidamente recebeu um post só dela), quando a química entre os atores já parece consolidada e quando a relação entre filme-espectador já é completa, Down by Law se torna pra mim um daqueles filmes que te deixam totalmente absorvidos em todo aquele universo criado, uma sensação de bem-estar muito rara de se sentir (especialmente na vida real, é claro).

Para completar, temos ainda uma bela trilha sonora composta por John Lurie, também interpretando um dos papéis principais, fotografia lindona de Robby Muller, colaborador de Jarmusch em outros filmes como Estranhos no Paraíso, e um plano final que é realmente perfeito.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Cláudio Assis

Amarelo Manga (2002)
Baixio das Bestas (2007)



É muito provavelmente o mais polêmico cineasta brasileiro em atividade, seja pelo forte conteúdo de seus filmes ou pelas suas declarações (algumas estúpidas, outras hilárias – talvez justamente por serem estúpidas) em público. Somente isso já seria suficiente para coloca-lo na lista de cineastas mais interessantes (o que não significa que ele seja necessariamente bom) do atual cenário brasileiro, independentemente da qualidade de seus filmes (ou da falta dela). Amarelo Manga e Baixio das Bestas tem tantos detratores como defensores, mas é bom observar que existe uma linha tênue que os separam. Ambos podem até pertencer a um tipo de cinemas extremo, que buscam “ultrapassar os limites”, mas a abordagem dos fatos não é tão parecida assim.


Amarelo, sua estréia, funciona como uma alegoria, com alguns personagens que parecem saídos de algum sonho maluco (ou de Trópico de Câncer, do Henry Miller – especialmente naquela parte sensacional em que dois personagens chegam na “casa de loucos”), assumidamente caricatos. Retira o humor (por vezes doentio) do grotesco, criando um retrato realmente singular do brasileiro médio, com uma representação extremamente viva e pulsante do cotidiano. Talvez seja justamente essa irreverência que o distancie do Baixio das Bestas, que entra mais no território da denúncia barata. As caricaturas, agora, parecem ser levadas a sério, como se esta fosse o relato mais fiel da “realidade” (até personagens falsamente ambíguos, como o avô – que reclama da falta de moral do mundo ao mesmo tempo em que explora sua filha (e neta, diga-se de passagem) – acabam se revelando apenas extremamente rasos). Todo o discurso soa apenas reducionista, simplificado e limitado, especialmente ao retratar a classe média. O choque é fácil e toda a sua linguagem me parece mais infantil do que “revoltada”.

Agora, o meu maior interesse é saber qual e como será o próximo passo de Assis. Mas há também a grande possibilidade dele morrer de cirrose antes que esse dia chegue.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

La Belle Personne

(2008, Christophe Honoré)

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Se comparado aos seus dois trabalhos anteriores, La Belle Persone, novo filme do Christophe Honoré, exibido no Festival Varilux de Cinema, pode até parecer impessoal (algo que não é, de modo algum), mas talvez seja não apenas o seu melhor filme até agora como também é o seu trabalho mais sóbrio, maduro, conciso e regular (pra calar a boca de quem acreditava que ele é um diretor de meros pastiches). Curiosamente, o que me vem a cabeça quando penso no filme não é mais Truffaut ou Rohmer, ou qualquer outro cineasta da nouvelle vague, como acontecia com o Canções de Amor e Em Paris, e sim o cinema do Valério Zurlini. Não saberia explicar exatamente o por quê dessa lembrança, mas talvez seja o fato de que La Belle Personne é um filme totalmente centrado em uma observação de gestos e olhares, retirando seus mais belos momentos de cenas muito simples (Junie lendo a tradução de um texto em italiano ou a cena em que ela descobre a carta). Honoré parece observar e estudar todos os jovens em cena (aliás, é o seu trabalho que mais se aproxima do universo adolescente), criando uma cumplicidade enorme que já é muito comum de encontrar em seus trabalhos. Segue a linha de uma história de amor clássica e trágica (não à toa inspirado em um livro escrito no século XVII), que usa e abusa de Nick Drake, o que, aliás, é um golpe baixo (meio difícil não gostar de um filme que se encerra Way to Blue, maravilhosamente utilizada em uma das cenas finais mais bonitas do ano). Tem também um Louis Garrel menos irritante do que o de costume, no seu papel mais corajoso e adulto até o momento, e uma atriz principal que justifica totalmente o título.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Dois Filmes de Albert Lamorisse

O Balão Vermelho (Le Ballon Rouge, 1956)
O Cavalo Branco (Crin Blanc: Le Cheval Sauvage, 1953)

AVISO: Alguns spoilers no parágrafo sobre O Balão Vermelho.

Desconhecia completamente o nome de Albert Lamorisse antes de que começasse a ser exibido pelo Brasil as cópias de dois famosos médias-metragens, ambos premiados em Cannes e que funcionam muito bem como sessão dupla (o modo como tem sido exibidos, aliás), especialmente devido a proximidade entre seus temas, com ambos tecendo um retrato muito delicado do universo infantil.

Em O Balão Vermelho, palma de ouro em 1957 (e que serviu de inspiração para o novo filme do Hou Hsiao-Hsien, A Viagem do Balão Vermelho), acompanhamos a rotina de um garoto com o objeto-título, incitando a inveja de seus colegas de classe e a ira de certos adultos. Impressionante como Lamourisse consegue retirar tanto lirismo e poesia do cotidiano, dando ao balão quase vida própria. A herança direta do cinema mudo aqui é bem evidente, visto que é um trabalho que guarda toda a sua força no poder visual, sendo nesse sentido ainda assim muito sóbrio, simples, sem firulas ou exageros. No modo como trabalha o humor, lembra demais o cinema do Jacques Tati, com um lado cômico baseado em tiradas clássicas, chaplinianas. Além disso, tem pelo menos umas três cenas brilhantes, que muito filme com o triplo da duração não consegue produzir: o encontro com o garoto do balão azul; a “morte” do balão vermelho; e o final, com a viagem de todos os balões da cidade, um momento que parece retirado do imaginário infantil.

Já O Cavalo Branco, ganhador do Grande Prêmio do Júri de Cannes em 53, não conseguiu me envolver ou me emocionar tanto quanto o do balão, talvez por se esgotar mais rapidamente e por não possuir tantos grandes momentos como o seu sucessor. Resta, de qualquer modo, um trabalho de interesse, criando uma espécie de elogio à liberdade, algo que tanto os dois personagens principais pretendem alcançar (algo que também é representado pela cena final do “Balão Vermelho”). Aqui, vemos um cavalo que, sempre que é caçado pelos homens da região, acaba conseguindo fugir, despertando a atenção e o fascínio de um garoto, que consegue domá-lo e que vira seu companheiro. Novamente, há a força estética (um cenário quase que completamente branco), também com poucos diálogos, mas dessa vez há uma narração em off, que dá um tom fabuláico à obra, mas que também me parece desnecessária. Se beneficia por também se encerrar de uma maneira linda.