
Os Imperdoáveis é considerado como uma ressucitação do faroeste, mas acredito que esteja mais para epitáfio. O filme foi feito em 1992, mas, 40 anos antes, Will Munny, um "conhecido ladrão e assassino, homem de temperamento cruel e intempestivo" (o personagem de Eastwood que talvez mais se aproxime do recente Walt Kowalski, de Gran Torino - Dirty Harry? Juro que nem pensei nele) seria o pefeito vilão de um trabalho clássico do gênero. No entanto, o filme já nos apresenta a um Will Munny corroído pela culpa, já na velhice, sem nenhuma perpectiva, talvez o destino de todos os grandes personagens dos faroestes. O seu parceiro, interpretado por Morgan Freeman, conserva algumas de suas antigas habilidades, mas, como podemos notar quando ele se recusa a continuar acompanhando os seus dois amigos, matar um homem parece ser a última coisa em que pode imaginar. O tempo passou, aqueles heróis não são mais os mesmos, e o que torna Os Imperdoáveis uma obra tão amarga é justamente o fato de ter uma consciência muito forte disso, de modo que, por mais que seja um trabalho obviamente clássico, que nos remete diretamente a John Ford ou Howard Hawks, não tem nenhum desejo de realizar um "revival". Um personagem que talvez ainda possuisse alguma capacidade de se tornar um herói do gênero é Scofield Kid, mas, logo após matar seu primeiro homem, percebe que aquela vida simplesmente não é pra ele. Não há nenhuma visão romântizada da violência em Os Imperdoáveis, com a morte nos mostrada nua e crua, sendo a sua inevitabilidade o grande tema do trabalho (além de perda e culpa, que estão presentes em quase todos os trabalhos de Eastwood).
Já no terceiro ato, Will Munny, que no início mal conseguia montar em seu cavalo, volta a ser um assassino de sangue frio, aquele que antes matava tudo que andava ou rastejava, mas, agora, não por maldade, e sim por uma questão de fraternidade, pra defender a honra de seu amigo (algo que está presente de modo muito forte em Hawks e Ford). Não é, de modo algum, uma redenção; talvez o protagonista nem quisesse "ressucitar" daquele jeito, se lembrando do homem impiedoso que era no passado. Portanto, será que também seria necessário ressucitar o faroeste? Será que para esse gênero, assim como acontece com quase todos os personagens de Os Imperdoáveis, a morte não seria algo iminente e inevitável? Já próximo dos créditos finais, somos avisados, de um modo muito vago, do possível destino do personagem: "disseram que foi para San Francisco e que lá prosperou como dono de armazém". Disseram. Assim como acontece com o próprio Western, o seu fim permanece um enigma.
PS: Me desculpem pela ausência de uma semana. Vou tentar atualizar mais, talvez com algumas notícias de Cannes.